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Campeonatos em Cidades sem Skatepark: Porquê e Para Quê(m)?

Publicado na Lodo Zine #4 — Junho 2022

Competições sempre foram uma parte central do estreitamento de laços da comunidade do skate a nível nacional. Independentemente da sua dimensão ou formato, os campeonatos de skate, como o Circuito Nacional, sempre se preocuparam primariamente em dar uma plataforma competitiva aos ‘atletas’ de todo o país, assim como uma boa desculpa para criar novas amizades com os nossos pares de localizações mais distantes.

Contemporaneamente, a magnitude, influência e complexidade de produção de competições de cariz nacional aumentaram exponencialmente, acompanhando assim a ascensão da prática do skate a novos patamares desportivos, económicos e industriais. Esta evolução natural de uma prática que captou os corações e mentes de tantos indivíduos, deveria ser sempre acompanhada por uma reavaliação das responsabilidades para com essa mesma comunidade.

Ou, posto em clichés: “Com grande poder vem grande responsabilidade”.

Consciente de que falar de ‘poder’ e skate poderá parecer hiperbólico, a verdade é que este tipo de iniciativas servem também de veículo para incentivar ao início da prática; Não são raros os testemunhos de pessoas que começaram a skatar por terem visto um campeonato ou demonstração, muitas vezes em locais sem skateparks.

E o que em tempos poderá ter aparentado ser uma repercussão positiva, nos dias que correm creio que sabemos melhor. De modo que campeonatos de larga escala ocorram onde for, os municípios têm obrigações monetárias para com a organização dos mesmos. Eventos, especialmente de larga escala, requerem recursos para a sua realização, e isso é um facto — Tudo o que atinge uma certa magnitude tem custos de produção elevados.



Neste caso encontra-se a mais óbvia contradição: se os municípios têm recursos para ‘importar’ campeonatos, porque não têm os mesmos disponibilidade para investir em infraestruturas? Claro que a construção de um skatepark tem custos muito mais elevados que os de um evento pontual, mas se um local não tem nem uma rampa de madeira com chão liso, deveria de ser prioritário para os poderes locais aplicar tais fundos em infraestruturas fixas, e não eventos pontuais. Independentemente da verba aplicada na produção de um evento que dura pouco mais que um fim-de-semana, existem várias opções (cimento, madeira; minirampa, kicker, etc) através das quais comunidades locais possam crescer e skatar em segurança e com dignidade.

E mais pessoas a skatar não é algo automaticamente positivo?

Algumas lógicas ditam que com mais praticantes ativos, os municípios terão certamente ouvir a sua população e construir skateparks… Sendo esse o principal argumento de organizadores, e que aparenta fazer sentido a alguns municípios.

O problema primário é que o skate não existe numa lógica de mercado em que quanta maior procura (skaters), maior oferta (skateparks). Os skateparks são espaços públicos, com um potencial comunitário gigante, e que abrangem seções da sociedade bem mais plurais que apenas ‘skaters’ (artistas de rua, ciclistas, inliners, locais a passear os cães, músicos e outros artistas, etc). Skateparks não podem ser reduzidos a rampas, e é isso mesmo que a lógica de priorizar eventos extremamente pontuais, e de larga escala, fazem.

O tratamento preferencial prestado a campeonatos em cidades sem skatepark demonstra também uma subvalorização das comunidades locais por parte de todos os envolvidos. Para além de pontual, a natureza competitiva de tal espaço significa que o acesso ao mesmo é extremamente condicionado quando contrastado com um skatepark público. Para além de aprofundarem o distanciamento e antagonismo entre as comunidades locais, os organizadores, e o município, estas situações acabam por lesar o crescimento de praticantes de forma sustentada.

Qualquer skater que tenha crescido sem skatepark sabe o quão desmotivante é a constante luta pela partilha de espaços públicos. Como tal, se existir realmente um aumento de praticantes como resultado do evento, em que condições é que os mesmos continuam para além dos seus primeiros passos?

Entre os infelizes e confrontacionais encontros com a polícia, até às interações agressivas com as camadas mais ignorantes da nossa sociedade, começar (e continuar) a skatar num ambiente hostil é um dos desafios mais desnecessários que a comunidade do skate enfrenta hoje — pois não é por falta de opções que os municípios não edificam qualquer tipo de infraestrutura adequada á prática do skate.

Ou seja, a lógica que campeonatos são um caminho para acelerar o processo de construção de um skatepark, prova-se contestável, pois reduz skaters a números, e skateparks a rampas. E em toda a verdade, a nossa comunidade merece ter um sítio onde possa estar descansada, a fazer aquilo que mais gosta; e os recursos municipais (independentemente do seu volume) deveriam sempre ser aplicados primeiro na construção de equipamentos, e só depois (se algo sobrar) em importar campeonatos, eventos, e atletas megalómanos.

-Viriato Villas-Boas


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